Hoje apresentei um trabalho sobre Regionalismo Crítico, que seria resumidamente, uma escola que tenta refletir sobre os arquitetos que fazem uso de técnicas presentes em sua região de atuação, utilizando como conceitos-base o uso da iluminação nas edificações, aproveitamento do vento e adequação às topografias da área.
Em particular falei sobre Severiano Mário Porto, um dos maiores expoentes do regionalismo no Brasil, particularmente no Amazonas. Severiano
é filho de pais pernambucanos e nasceu em Uberlândia em 1935. Formou-se em 1954 na Faculdade Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, e lá foi estágiário-desenhista na Construtora Britto onde mais 11 anos trabalhou como arquiteto.
A característica básica da arquitetura de Severiano é o trabalho com madeira, que em quase todas as suas obras representa 90% da estrutura, além de privilegiar o conforto ambiental e a fluidez e organicidade dos espaços que projeta. Ele estuda detalhadamente o local da obra, bem como sua topografia afim de agredir o mínimo possível o entorno.
Nesse ponto é que eu considero este arquiteto fenomenal. Ele consegue dialogar com a natureza de forma extremamente coesa e natural, utilizando a natureza como aliada, sendo um ponto a mais em suas obras; diferente do grande Oscar Niemeyer que prefere que sua criação seja única sem relação com a natureza. Porto é um observador sagaz das várias soluções arquitetônicas que se pode obter em uma obra; admira a simplicidade das casas simples de Manaus, que para ele representam o que há de mais fundamental em residência: um canto onde possamos nos sentir bem, acolhidos, convidados à reflexão – leia-se um lar.
Assim, neste breve comentário sobre o arquiteto, abro espaço para algumas sábias citações do mestre:
“(…) acharam que madeira era obra de pobre, o governo queria uma imagem de permanência.” (PORTO, Severiano Mário. Id. Ibid, p. 46)
“Construí uma casa de madeira junto de um igarapé; na época não era costume, apenas as pessoas do povo moravam assim.” (PORTO, Severiano Mário. Id. Ibid, p. 47)
“Foi observando o pessoal nativo – os seringueiros, para mim, gigantes que cruzam a floresta amazônica a pé e passam meses embrenhados na mata, levando uma bagagem mínima, enfrentando toda sorte de problemas até grande onças que a gente pode encontrar mesmo perto de Manaus – que aprendi sobre o fazer regional.” (PORTO, Severiano Mário. Id. Ibid, p. 48)
“As construções populares regionais existem porque são boas e baratas, não acontecem por acaso.” (Porto, Severiano)
“Técnicas regionais, como a taipa, não são ensinadas, não existe literatura didática a respeito.” (Porto, Severiano)
“Copiamos, no Equador, o que se faz no Japão… por exemplo, vitrines voltadas para a rua, quando o calor é tanto que não se pode ficar parado olhando (…) Vivemos lendo livros estrangeiros, e queremos entrar nos padrões europeus (…)” (Porto, Severiano)
A partir disto, já se percebe o gabarito e a lucidez deste grande arquiteto.